quinta-feira, 24 de maio de 2012

CAMPEÕES NO BALNEÁRIO!



Ontem realizou-se no Dragão Caixa o 5.º e decisivo encontro de atribuição do título de Campeão Nacional de Basquetebol.

O FCPorto, que liderou o campeonato durante praticamente toda a época, chegava ao final da fase regular no topo da classificação, o que lhe permitia beneficiar do factor casa. Aspecto determinante, sobretudo, nas modalidades de pavilhão em que o apoio do público é intenso e precioso.
Para além do factor casa, o FCPorto beneficiava, ainda, da grave crise económica que afecta sobremaneira os clubes insulares: o CAB Madeira, chegado às meias-finais, anunciava a sua desistência, o que permitia ao clube portista carimbar acesso directo à final, não tendo que disputar uma sempre inconveniente meia-final, à melhor de três jogos.
A final colocava, frente a frente, as duas melhores equipas do campeonato: FCPorto Vs SLBenfica.
Numa final à melhor de cinco jogos, a conquista de duas vitórias por parte de cada um dos clubes obrigava a que se retornasse ao Dragão Caixa para disputar a “negra”.

Horas antes da realização do derradeiro encontro, o FCPorto informava à agência Lusa que o jogo seria transmitido pelo canal do clube, o Porto Canal, desautorizando desta forma a FPB e a própria Sportv, que tinha adquirido os direitos de transmissão do encontro.
Bem ao jeito do clube nortenho, era hora de não descurar pormenores: a negra disputava-se em “casa”, o pavilhão estaria lotado, os adeptos, fervorosos e intimidatórios, tratariam de empurrar a equipa para a frente, a transmissão televisiva, essa, estaria a cargo das gentes da casa, bem ao estilo venezuelano.
O cenário estava montado e parecia perfeito para voltar a achincalhar o rival de estimação: depois da forma humilhante como a época passada haviam derrotado o clube da águia em plena Luz, quer para o campeonato quer para a taça de Portugal; depois da “manita” infligida no Dragão, na época passada, parecia impossível que tal não se voltasse a repetir.

Com um pavilhão cheio e um público sedento de um novo linchamento, era imperioso que no trono estivesse sentado sua santidade, qual D. Corleone, suspirando por nova lide, almejando dar a estocada final bem ao seu estilo burguês e sobranceiro.
O apito soou e o Benfica rapidamente alcançou a liderança do marcador, posição que não mais deixou e que o catapultou para a conquista de novo título nacional, dando uma demonstração de grande carácter e coragem.

Terminado o encontro, foi ver uma chuva de cadeiras, isqueiros e impropérios, por gentes que não sabem ocupar o lugar que a sociedade lhes confere, obrigando o clube vencedor a receber o troféu, imagine-se...no balneário!
A facilidade com que os adeptos do FCPorto recorreram à violência, logo após o apito final, para castigar aqueles que mais fizeram por merecer vencer, deixa a nu as fragilidades de um clube que não soube, que não sabe, que não saberá ser uma instituição de massas.
Senti naquelas almas libertadoras de ódio e rancor, a frustração de anos de sucesso caminhados na solidão, sem o apoio de um país, que não quer que não aprecia, tiques de burguesia.
A dificuldade em lidar com o sucesso e a forma como não o sabe servir ao país, fazem do FCPorto um clube ao qual não se reconhece a dimensão e o mérito condizentes com o seu espólio.

As parcas imagens filtradas para o exterior, fizeram-me viajar no tempo e pensar que um tal guarda, que era Abel, ainda ilumina mentes afrontadas por esquemas de perseguição e ameaça, vividas outrora numa espécie de túnel. Fizeram-me, ainda, viajar a um qualquer clube de bairro argentino, brasileiro ou escocês onde a rivalidade extravasa a decência.

Episódios como o de ontem, foram prática corrente durante os anos 90, quase à medida das vitórias e sucessos do clube, sinal de que esta é uma filosofia adoptada por quem o dirige há mais de 30 anos.
Bem sei que, outrora, iguais episódios aconteceram no pavilhão do meu clube; bem sei que o jogador Filipes Santos não mais esquecerá a forma como as gentes do Benfica barbaramente o atacaram e empurraram para um coma do qual felizmente se livrou, bem sei que estes e outros desacatos vão acontecendo sempre que o FCPorto se desloca a Lisboa, contudo, não é por isso que me sinto menos legitimado para agora apontar o dedo.
Este tipo de comportamentos surge na esteira de declarações incendiárias que Pinto da Costa, bem ao seu estilo, proferiu nas últimas duas semanas, como se o Benfica fosse a sua preocupação, o seu tormento.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O REGRESSO DE “THE ROCKET”!

Na passada 2.ª feira, dia 07 de Maio de 2012, terminou a 75.ª edição do Campeonato do Mundo de Snooker, mais uma vez realizada no Crucible Theater, mais uma vez reunindo a nata do snooker mundial.

Havia a curiosidade de perceber se esta edição se manteria fiel às duas anteriores e lançava na ribalta um novo talento do snooker mundial: em 2010, havia sido Neil Robertson, ao alcançar, inesperadamente, o título mundial; em 2011, foi a vez de Judd Trump, surgido do anonimato, atingir de forma totalmente inesperada a final após um percurso imaculado, jogando um snooker de grande nível, bastante ousado e corajoso

Embora existisse esta espectativa, foi um velho conhecido da modalidade a chamar a si todo o protagonismo: Ronnie O’Sullivan voltava a brilhar no Crucible Theater, conquistando o seu quarto título mundial.

Depois de vários anos arredado da sua melhor forma, dispersando com questões de somenos importância, The Rocket estava de regresso ao seu melhor estilo.

Embora com um pequena mas importante nuance no seu jogo defensivo, agora mais cauteloso a defender do que outrora, Ronnie chegava à final, deixando para trás alguns ex-campeões do mundo. Na final, acabaria por não dar qualquer hipótese ao eterno segundo Ali Carter.

É bem verdade que o estilo irreverente e agressivo com que, durante anos, brindou as mais elegantes mesas de Snooker do mundo já la vai, contudo, ficou a magia, o talento e a mestria de um predestinado.

O estilo de jogo de Ronnie é hoje mais táctico, mais defensivo, menos exuberante, menos provocador, mas igualmente espectacular e, como dizem alguns intelectuais da modalidade, igualmente obsceno.

Para quem não acompanha a modalidade, provavelmente não perceberá o alcance da palavra: Ronnie é obsceno porque tem a ousadia de enfrentar os seus adversários jogando, quer com a mão direita quer com a mão esquerda, com a mesma qualidade e precisão; porque joga a uma velocidade que só ele consegue acompanhar; porque pensa e estratega o seu jogo enquanto desfere tacadas. É recorrente ver Ronnie apontar o taco para bater uma bola, ainda o árbitro de mesa está a retirar do buraco a bola que acabou de embolsar.

Para mim, que vi jogar nos últimos 6/7 anos jogadores como Stephen Hendry, Steve Maguire, Peter Ebdon, Mark Wiliams, Shaun Murphy, Ken Doherty, Ding Junhui, Jonh Higgins, Mark Selby, Mark Allen, Neil Robertson e, mais recentemente, Judd Trump, não consigo eleger outro que não Ronnie.
Aquilo que mais apaixona em Ronnie é o facto de o seu jogo ser fruto, não apenas de muito trabalho, mas sobretudo de um talento inato que nasceu e morrerá consigo.

Porém, a vida nem sempre lhe sorriu: a posse de marijuana num torneio de snooker nos anos 90 bem como a prisão perpétua do seu pai, por homicídio, são dois episódios que marcarão indelevelmente a sua carreira.

As “ressacas” de uma vida desassossegada, associadas a um espirito já de si rebelde e irreverente prejudicaram sobremaneira o seu jogo e a capacidade de decidir nos grandes momentos…motivo pelo qual necessitou de parar, reflectir, pedir ajuda e recomeçar.
O acompanhamento psicológico de que passou a beneficiar terá estado no epicentro das motivações do seu regresso à melhor forma.

Depois de um chorrilho de tacadas dispersas por três agradáveis sessões, Ronnie batia inapelavelmente Ali Carter e sagrava-se campeão do mundo. A maturidade dos 37 anos que carrega, testemunhas de um jogador mais calmo, mais sereno, mais sóbrio, ficaram a nu momentos após desferir a derradeira tacada, quando abraçou o seu filho, sinal de que aquele era o troféu mais valioso que a vida lhe proporcionara

As manifestações de carinho e ternura que demonstrou pelo filho à medida e ao ritmo das perguntas que iam sendo debitadas pelo jornalista da Eurosport, bem como a forma como, após a conquista do título mundial, confortou o seu adversário, Ali Carter, demonstram como está melhor ser humano, como a vida de um jogador não é apenas estratégia, calculismo e ambição mas também o afecto e amizade.

Logo de seguida, o jogador inglês tratou de sossegar os mais apreensivos com os rumores que davam como certo o seu abandono, informando que ainda não era a hora de se despedir da modalidade, continuando, assim, a presentear-nos com o brilho do seu taco.

No reverso da medalha, a despedida de um outro grande campeão: Stephen Hendry.
Após mais de duas décadas a jogar ao mais alto nível, com 7 títulos mundiais e a liderança consecutiva do ranking mundial entre 1990 e 1998 como cartão de visita, decidiu pendurar o taco. O desgaste de sucessivas viagens, sobretudo ao continente asiático, onde se realizam os principais torneios de snooker, castigam em demasia a relação familiar dos jogadores de topo do snooker mundial, razão pela qual abandonam prematuramente a modalidade.

Stephen Hendry terá sido o melhor, o mais completo, o mais premiado de todos os tempos.