Ontem realizou-se no Dragão Caixa o 5.º e decisivo encontro de
atribuição do título de Campeão Nacional de Basquetebol.
O FCPorto, que liderou o campeonato durante praticamente toda a época,
chegava ao final da fase regular no topo da classificação, o que lhe permitia
beneficiar do factor casa. Aspecto determinante, sobretudo, nas modalidades de
pavilhão em que o apoio do público é intenso e precioso.
Para além do factor casa, o FCPorto beneficiava, ainda, da grave crise
económica que afecta sobremaneira os clubes insulares: o CAB Madeira, chegado
às meias-finais, anunciava a sua desistência, o que permitia ao clube portista carimbar
acesso directo à final, não tendo que disputar uma sempre inconveniente
meia-final, à melhor de três jogos.A final colocava, frente a frente, as duas melhores equipas do campeonato: FCPorto Vs SLBenfica.
Numa final à melhor de cinco jogos, a conquista de duas vitórias por parte de cada um dos clubes obrigava a que se retornasse ao Dragão Caixa para disputar a “negra”.
Horas antes da realização do derradeiro encontro, o FCPorto informava
à agência Lusa que o jogo seria transmitido pelo canal do clube, o Porto Canal,
desautorizando desta forma a FPB e a própria Sportv, que tinha adquirido os
direitos de transmissão do encontro.
Bem ao jeito do clube nortenho, era hora de não descurar pormenores: a
negra disputava-se em “casa”, o pavilhão estaria lotado, os adeptos, fervorosos
e intimidatórios, tratariam de empurrar a equipa para a frente, a transmissão
televisiva, essa, estaria a cargo das gentes da casa, bem ao estilo venezuelano.
O cenário estava montado e parecia perfeito para voltar a achincalhar o rival de estimação: depois da forma humilhante como a época passada haviam derrotado o clube da águia em plena Luz, quer para o campeonato quer para a taça de Portugal; depois da “manita” infligida no Dragão, na época passada, parecia impossível que tal não se voltasse a repetir.
Com um pavilhão cheio e um público sedento de um novo linchamento, era imperioso que no trono estivesse sentado sua santidade, qual D. Corleone, suspirando por nova lide, almejando dar a estocada final bem ao seu estilo burguês e sobranceiro.
O apito soou e o Benfica rapidamente alcançou a liderança do marcador, posição que não mais deixou e que o catapultou para a conquista de novo título nacional, dando uma demonstração de grande carácter e coragem.
Terminado o encontro, foi ver uma chuva de cadeiras, isqueiros e
impropérios, por gentes que não sabem ocupar o lugar que a sociedade lhes
confere, obrigando o clube vencedor a receber o troféu, imagine-se...no
balneário!
A facilidade com que os adeptos do FCPorto recorreram à violência,
logo após o apito final, para castigar aqueles que mais fizeram por merecer
vencer, deixa a nu as fragilidades de um clube que não soube, que não sabe, que
não saberá ser uma instituição de massas.Senti naquelas almas libertadoras de ódio e rancor, a frustração de anos de sucesso caminhados na solidão, sem o apoio de um país, que não quer que não aprecia, tiques de burguesia.
A dificuldade em lidar com o sucesso e a forma como não o sabe servir ao país, fazem do FCPorto um clube ao qual não se reconhece a dimensão e o mérito condizentes com o seu espólio.
As parcas imagens filtradas para o exterior, fizeram-me viajar no
tempo e pensar que um tal guarda, que era Abel, ainda ilumina mentes afrontadas
por esquemas de perseguição e ameaça, vividas outrora numa espécie de túnel. Fizeram-me,
ainda, viajar a um qualquer clube de bairro argentino, brasileiro ou escocês
onde a rivalidade extravasa a decência.
Episódios como o de ontem, foram prática corrente durante os anos 90, quase à medida das vitórias e sucessos do clube, sinal de que esta é uma filosofia adoptada por quem o dirige há mais de 30 anos.
Bem sei que, outrora, iguais episódios aconteceram no pavilhão do meu clube; bem sei que o jogador Filipes Santos não mais esquecerá a forma como as gentes do Benfica barbaramente o atacaram e empurraram para um coma do qual felizmente se livrou, bem sei que estes e outros desacatos vão acontecendo sempre que o FCPorto se desloca a Lisboa, contudo, não é por isso que me sinto menos legitimado para agora apontar o dedo.

