Na passada 2.ª feira, dia 07 de Maio de 2012, terminou a 75.ª edição
do Campeonato do Mundo de Snooker, mais uma vez realizada no Crucible Theater, mais
uma vez reunindo a nata do snooker mundial.
Havia a curiosidade de perceber se esta edição se manteria fiel às
duas anteriores e lançava na ribalta um novo talento do snooker mundial: em
2010, havia sido Neil Robertson, ao alcançar, inesperadamente, o título mundial;
em 2011, foi a vez de Judd Trump, surgido do anonimato, atingir de forma
totalmente inesperada a final após um percurso imaculado, jogando um snooker de
grande nível, bastante ousado e corajoso
Embora existisse esta espectativa, foi um velho conhecido da
modalidade a chamar a si todo o protagonismo: Ronnie O’Sullivan voltava a
brilhar no Crucible Theater, conquistando o seu quarto título mundial.
Depois de vários anos arredado da sua melhor forma, dispersando com
questões de somenos importância, The Rocket estava de regresso ao seu melhor
estilo.
Embora com um pequena mas importante nuance no seu jogo defensivo, agora mais cauteloso a defender do
que outrora, Ronnie chegava à final, deixando para trás alguns ex-campeões do
mundo. Na final, acabaria por não dar qualquer hipótese ao eterno segundo Ali
Carter.
É bem verdade que o estilo irreverente e agressivo com que, durante
anos, brindou as mais elegantes mesas de Snooker do mundo já la vai, contudo, ficou
a magia, o talento e a mestria de um predestinado.
O estilo de jogo de Ronnie é hoje mais táctico, mais defensivo, menos
exuberante, menos provocador, mas igualmente espectacular e, como dizem alguns
intelectuais da modalidade, igualmente obsceno.
Para quem não acompanha a modalidade, provavelmente não perceberá o
alcance da palavra: Ronnie é obsceno porque tem a ousadia de enfrentar os seus
adversários jogando, quer com a mão direita quer com a mão esquerda, com a
mesma qualidade e precisão; porque joga a uma velocidade que só ele consegue
acompanhar; porque pensa e estratega o seu jogo enquanto desfere tacadas. É
recorrente ver Ronnie apontar o taco para bater uma bola, ainda o árbitro de
mesa está a retirar do buraco a bola que acabou de embolsar.
Para mim, que vi jogar nos últimos 6/7 anos jogadores como Stephen
Hendry, Steve Maguire, Peter Ebdon, Mark Wiliams, Shaun Murphy, Ken Doherty,
Ding Junhui, Jonh Higgins, Mark Selby, Mark Allen, Neil Robertson e, mais
recentemente, Judd Trump, não consigo eleger outro que não Ronnie.
Aquilo que mais apaixona em Ronnie é o facto de o seu jogo ser fruto,
não apenas de muito trabalho, mas sobretudo de um talento inato que nasceu e
morrerá consigo.
Porém, a vida nem sempre lhe sorriu: a posse de marijuana num torneio
de snooker nos anos 90 bem como a prisão perpétua do seu pai, por homicídio, são
dois episódios que marcarão indelevelmente a sua carreira.
As “ressacas” de uma vida desassossegada, associadas a um espirito já
de si rebelde e irreverente prejudicaram sobremaneira o seu jogo e a capacidade
de decidir nos grandes momentos…motivo pelo qual necessitou de parar,
reflectir, pedir ajuda e recomeçar.
O acompanhamento psicológico de que passou a beneficiar terá estado no
epicentro das motivações do seu regresso à melhor forma.
Depois de um chorrilho de tacadas dispersas por três agradáveis sessões,
Ronnie batia inapelavelmente Ali Carter e sagrava-se campeão do mundo. A
maturidade dos 37 anos que carrega, testemunhas de um jogador mais calmo, mais
sereno, mais sóbrio, ficaram a nu momentos após desferir a derradeira tacada, quando
abraçou o seu filho, sinal de que aquele era o troféu mais valioso que a vida
lhe proporcionara
As manifestações de carinho e ternura que demonstrou pelo filho à
medida e ao ritmo das perguntas que iam sendo debitadas pelo jornalista da
Eurosport, bem como a forma como, após a conquista do título mundial, confortou
o seu adversário, Ali Carter, demonstram como está melhor ser humano, como a
vida de um jogador não é apenas estratégia, calculismo e ambição mas também o
afecto e amizade.
Logo de seguida, o jogador inglês tratou de sossegar os mais apreensivos
com os rumores que davam como certo o seu abandono, informando que ainda não era
a hora de se despedir da modalidade, continuando, assim, a presentear-nos com o
brilho do seu taco.
No reverso da medalha, a despedida de um outro grande campeão: Stephen
Hendry.
Após mais de duas décadas a jogar ao mais alto nível, com 7 títulos
mundiais e a liderança consecutiva do ranking mundial entre 1990 e 1998 como
cartão de visita, decidiu pendurar o taco. O desgaste de sucessivas viagens,
sobretudo ao continente asiático, onde se realizam os principais torneios de snooker,
castigam em demasia a relação familiar dos jogadores de topo do snooker
mundial, razão pela qual abandonam prematuramente a modalidade.
Stephen Hendry terá sido o melhor, o mais completo, o mais premiado de
todos os tempos.

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