quarta-feira, 29 de agosto de 2012

POBRE BASQUETEBOL, PARA ONDE CAMINHAS TU?

 
Na passada segunda-feira, Portugal jogou e perdeu contra a Bielorrússia em mais um jogo do Grupo F de apuramento para o EuroBasket 2013, a realizar na Eslovénia.
Em quatro jogos, Portugal averbou a sua quarta derrota!, num jogo em que defrontou uma selecção bielorrussa com visíveis fragilidades técnicas.
 
No final do jogo, Mário Palma, seleccionador nacional, afirmou que “quem pensava que nos poderíamos apurar percebe pouco de basquetebol”. Ora, até aqui, tudo bem. De facto, o nosso basquetebol não tem, hoje em dia, estrutura ou sequer bases suficientemente sólidas que permitam sustentar a modalidade.
Com o que não concordo é com o que diz no seguimento dessa declaração: “Boa parte dos nossos atletas nem sequer joga nos seus clubes”. Falso, Mister.
 
Eu, que sou apenas um espectador atento da modalidade, dei-me ao trabalho de consultar alguns dados estatísticas e facilmente concluí que 80% dos jogadores por si convocados, durante a época transacta, jogaram 20 ou mais partidas em cada um dos seus clubes, o que significa que não foi por falta de ritmo que Portugal claudicou diante dos seus adversários.
 
Não quero com isto dizer que o insucesso do nosso basquetebol se deve ao seu treinador. Pelo contrário, Mário Palma é um técnico de inegável competência, que durante os anos 90 fez brilhar um Benfica do futebol na europa do basket; que levou Angola à conquista do Campeonato Africano de Basquetebol; que marcou presença em Jogos Olímpicos, em Campeonatos do Mundo de Basquetebol.
 
Porém, Mário Palma não tocou na ferida, numa ferida que tem anos, para a qual não existe receita para a sua cura.
Com a crise económica instalada, o país deixou de investir nas modalidades ditas amadoras e o basquetebol não fugiu à regra. Tudo é pensado pelos dirigentes desportivos em função do seu ente querido, o futebol, relegando para a gaveta da secretária os projectos de desenvolvimento das modalidades.
 
Sem investimento, sem aposta no desenvolvimento e na promoção da modalidade, não há resultados, nem desportivos nem financeiros, sem resultados escasseiam as receitas, sem receitas surgem salários em atraso, surgem clubes a fechar portas antes do final da época, ainda que apuradas para o play-off, surgem clubes com enormes responsabilidades no desporto nacional a anunciar a sua retirada temporária da modalidade, surge o buraco negro, quando todos procurávamos a luz ao fundo do túnel.
 
Depois de anos de enorme competitividade, com equipas como a Portugal Telecom, o Estrelas da Avenida, a AD Ovarense ou o próprio Queluz a intrometerem-se na luta pelas tabelas de campeão nacional, eis que esta linha aparente sucesso repentinamente entra numa curva descendente. Desaparecem algumas destas equipas, a própria AD Ovarense cai numa profunda crise financeira, vendo-se obrigada a reduzir drasticamente o seu orçamento anual, caindo por isso na tabela da competitividade.
A luta ficou, então, entregue a Porto e Benfica que durante os últimos 4/5 anos travaram uma saudável discussão pela conquista do título nacional, albergando o núcleo duro da selecção nacional.
 
A desistência do FCP e tudo o que a mesma implica, constituiu a estocada final no reerguer da modalidade.
Enquanto adepto de basquetebol, não posso estar mais desagradado com esta situação. Por mais que os benfiquistas se possam regozijar com a “queda” do eterno rival, ficando a conquista do título aparentemente mais fácil, o futuro encarregar-se-á de demonstrar o contrário.
 
Desta desistência resultará menor investimento, resultado da menor concorrência, perder-se-á emotividade, competitividade, receitas, perder-se-á a possibilidade de surgirem novos valores, perder-se-á prestígio, perder-se-á a réstia de esperança que nos fazia crer num futuro melhor.
E desta vez a culpa não poderá ser assacada há comunicação social, que muito tem feito para que a modalidade não cai no esquecimento, com transmissões semanais dos jogos da LBP bem como com a transmissão dos jogos mais importantes na selecção nacional.
 
Se o passado recente foi madrasto, o futuro será pai incógnito.