terça-feira, 30 de outubro de 2012

1000 JOGOS TEM UM...PRESIDENTE!

1000 jogos tem um Presidente…que um dia, um dia bem longínquo,  ganhou o seu primeiro jogo como presidente de um clube que, dizem os mais velhos, se assemelhava ao Vitória do Sado...bem atrás dos três grandes de Lisboa. Passados 30 anos dizem ser o maior de Portugal, um dos maiores do mundo.
 
Sou jovem, bem jovem ainda. Levo uma quinzena de anos e começo agora a compreender o fenómeno do futebol. Questiono-me: o que terá acontecido durante 30 anos?!
Não me recordo, não consigo imaginar como foram os idos 80 ou sequer os mais aconchegados 90, apenas estes mais recentes 2000. E como não me recordo recorro ao baú das reminiscências e corro a fita atrás num processo de rewind.
 
A cassete dispara, está pronta a arrancar. Quero ver este filme e por isso disparo o play. A páginas tantas a fita encrava, novo play e volta a encravar e assim acontece vezes sem conta. A cada interrupção, a imagem que surge é obscura e cinzenta.
Não percebo, quero muito decifrar aquelas imagens pouco ou nada claras que, compreendo mais tarde, a indecência e o indecoro não me deixam descodificar.
 
Tenho tenra idade mas a já suficiente para entender que o que a minha cassete me pede estará no parapeito da janela que nos liga ao mundo, ao mundo virtual, onde a verdade se encontra nua e crua.
Faço um clique e surgem imagens, vídeos, sons, sons que os mais velhos teimam em apelidar de “escutas”. Surgem verdades, aquelas verdades que clareiam a minha fita.
Retorno ao play e, agora sim, a fita desenrola suavemente, sem paragens, sem interrupções. O que antes era obscuro e cinzento é agora claro, bem claro.
 
Na tela surge um homem, um homem com poder, com muito poder, que soube arquitectar o seu percurso dentro e fora do futebol.
Um homem que soube controlar quem controla o futebol, que soube coagir e corromper quem decide no futebol, que soube fugir quando a justiça o pedia, que soube mandar para o Brasil quem o ajudou na pantominaria, que soube intimidar quem frequentava a sua casa, que soube usar o poder político para erigir o seu castelo, um castelo ventoso, é certo, mas ainda assim vistoso.
 
Sem votos, sem eleições, foi galgando décadas no poder, escudando-se no sucesso desportivo que alcançou, na massa adepta que o idolatrou, fazendo com isso esquecer os 60 mil que sempre ganhou, as comissões e as luvas que desviou.
 
Mas…seria redutor e injusto não contar tudo o que vi. Vi mais, vi muito mais.
 
Vi um homem, embora de rosto fechado, óculos antepassados e cabelo parco, inteligente, apaixonado, apaixonado por uma cidade, por clube, um clube que nunca abandonou, que sempre defendeu com unhas e dentes, contra tudo e contra todos, sem nunca virar a cara à luta.
 
Vi a glória de Viena, de Tóquio, de Sevilha, do Mónaco, de Gelsenkirchen, de Portugal. Sim de Portugal, de vários pedaços deste Portugal.
 
Vi um homem de grandes conquistas, que soube escolher os melhores, os melhores treinadores, os melhores jogadores, os melhores aliados, com poucos escrúpulos, é certo, mas leais ao seu líder, defendendo uma ideologia, um projecto, festejando no fim, sempre no fim, nunca no início!
 
Vi um homem que nunca se deixou intimidar pela glória dos Violinos, pela grandeza de Rei Eusébio, por um regime que censurava, declarando guerra ao sul do país.
 
Vi um homem que já deixou, que deixará a sua marca no mundo do futebol, no dirigismo desportivo, que como qualquer ídolo será odiado por muitos mas amado por muitos mais.
 
Tal como Berlusconi, Gil y Gil ou Tapie também ele abalroou o decoro, a honradez, a rectidão, em busca de um sonho, o sonho de tornar o seu clube, um clube grande.
 
…E termina a fita mas uma dúvida persiste: não haveria outro caminho, menos sombrio, menos tenebroso, menos ensombrado para chegar ao sucesso?! Talvez houvesse mas a estória também seria outra!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

MAGNÍFICO BRAGA!

Era suposto escrever algumas palavras sobre o jogo que o meu clube disputou ontem, ao final da tarde, em Moscovo…porém, o que vi poucas horas depois, em Manchester, obriga-me a alterar o discurso.
 
MAGNÍFICO BRAGA.
É assim que me apetece começar este pequeno apontamento sobre a equipa que ontem à noite silenciou Old Trafford durante largos minutos.
 
Na antecâmara do jogo vislumbravam-se algumas contrariedades: um pequeno David tentaria derrotar um gigante Golias, onde os milhões árabes tentariam esmagar as engenharias financeiras e o olho para o negócio de Salvador; a ala esquerda, sem Ismaily, exigia um Elderson concentrado, ele que quando em vez entrega o ouro ao bandido; o banco arsenalista estava despido de soluções para refrescar o meio-campo; o pressing alto e tão recorrente no futebol britânico, exigia qualidade na recepção e no passe; as dificuldades eram muitas mas o palco era...o palco dos “Sonhos”.
 
Era imperioso sonhar mas…sonhar em grupo, porque sonhar de forma isolada torna os jogadores demasiado egoístas e poucos solidários.
Mas só sonhar não chegava. Era necessário encontrar uma estratégia devidamente pensada, que permitisse retirar a bola ao adversário, que permitisse posicionar convenientemente os jogadores para, não só fechar os espaços, mas sobretudo fazer circular a bola ao primeiro toque evitando o pressing contrário. Era necessário afrontar o adversário sem o desrespeitar.
 
Estas seriam as “cores” com que José Peseiro tentaria pintar o relvado do Teatro dos Sonhos!
À medida que o jogo foi avançando, percebeu-se que a obra poderia ser prima. A forma desinibida como os jogadores do SCB entraram em campo, sem medo de errarem, sem o receio de terem a bola, fazendo-a circular, obrigando o adversário a correr, banalizou uma das 3/4 melhores equipas do mundo. A forma como, com segurança, conseguiram esconder a bola, deixando os minutos correrem em direcção ao intervalo é a demonstração cabal da dimensão que o SCB atingiu no futebol europeu.
 
Vi uma equipa adulta, madura, inteligente, astuta, como não me recordo de ter visto em Old Trafford. Nem mesmo o FCP de Mourinho, que alcançou um empate em 2004, me impressionou tanto como a primeira parte deste SCB.

Na segunda metade, o elevadíssimo ritmo de jogo que as equipas inglesas sabem impor e para o qual as equipas portuguesas não estão habituadas nem preparadas; a falta de soluções para refrescar o miolo; a incapacidade de Peseiro para arriscar, atrasando excessivamente a entrada de jogadores como Mossoró, bem como o resultado final, descoloriu um pouco o brilho demonstrado durante a primeira parte.

Ainda assim, fico satisfeito por ver uma equipa portuguesa dar uma lição de “boas maneiras” a uns ingleses burgueses e com alguma soberba.