1000 jogos tem um
Presidente…que um dia, um dia bem longínquo, ganhou o seu primeiro jogo como presidente de
um clube que, dizem os mais velhos, se assemelhava ao Vitória do Sado...bem
atrás dos três grandes de Lisboa. Passados 30 anos dizem ser o maior de
Portugal, um dos maiores do mundo.
Sou jovem, bem jovem
ainda. Levo uma quinzena de anos e começo agora a compreender o fenómeno do
futebol. Questiono-me: o que terá acontecido durante 30 anos?!
Não me recordo, não consigo
imaginar como foram os idos 80 ou sequer os mais aconchegados 90, apenas estes
mais recentes 2000. E como não me recordo recorro ao baú das reminiscências e corro
a fita atrás num processo de rewind.
A cassete dispara,
está pronta a arrancar. Quero ver este filme e por isso disparo o play. A
páginas tantas a fita encrava, novo play e volta a encravar e assim acontece
vezes sem conta. A cada interrupção, a imagem que surge é obscura e cinzenta.
Não percebo, quero muito
decifrar aquelas imagens pouco ou nada claras que, compreendo mais tarde, a indecência
e o indecoro não me deixam descodificar.
Tenho tenra idade mas
a já suficiente para entender que o que a minha cassete me pede estará no
parapeito da janela que nos liga ao mundo, ao mundo virtual, onde a verdade se
encontra nua e crua.
Faço um clique e surgem
imagens, vídeos, sons, sons que os mais velhos teimam em apelidar de “escutas”.
Surgem verdades, aquelas verdades que clareiam a minha fita.
Retorno ao play e,
agora sim, a fita desenrola suavemente, sem paragens, sem interrupções. O que
antes era obscuro e cinzento é agora claro, bem claro.
Na tela surge um homem,
um homem com poder, com muito poder, que soube arquitectar o seu percurso
dentro e fora do futebol.
Um homem que soube controlar
quem controla o futebol, que soube coagir e corromper quem decide no futebol, que
soube fugir quando a justiça o pedia, que soube mandar para o Brasil quem o
ajudou na pantominaria, que soube intimidar quem frequentava a sua casa, que
soube usar o poder político para erigir o seu castelo, um castelo ventoso, é
certo, mas ainda assim vistoso.
Sem votos, sem
eleições, foi galgando décadas no poder, escudando-se no sucesso desportivo que
alcançou, na massa adepta que o idolatrou, fazendo com isso esquecer os 60 mil
que sempre ganhou, as comissões e as luvas que desviou.
Mas…seria redutor e injusto
não contar tudo o que vi. Vi mais, vi muito mais.
Vi um homem, embora de
rosto fechado, óculos antepassados e cabelo parco, inteligente, apaixonado,
apaixonado por uma cidade, por clube, um clube que nunca abandonou, que sempre
defendeu com unhas e dentes, contra tudo e contra todos, sem nunca virar a cara
à luta.
Vi a glória de Viena, de
Tóquio, de Sevilha, do Mónaco, de Gelsenkirchen, de Portugal. Sim de Portugal, de
vários pedaços deste Portugal.
Vi um homem de grandes
conquistas, que soube escolher os melhores, os melhores treinadores, os
melhores jogadores, os melhores aliados, com poucos escrúpulos, é certo, mas leais
ao seu líder, defendendo uma ideologia, um projecto, festejando no fim, sempre
no fim, nunca no início!
Vi um homem que nunca se
deixou intimidar pela glória dos Violinos, pela grandeza de Rei Eusébio, por um
regime que censurava, declarando guerra ao sul do país.
Vi um homem que já
deixou, que deixará a sua marca no mundo do futebol, no dirigismo desportivo, que
como qualquer ídolo será odiado por muitos mas amado por muitos mais.
Tal como Berlusconi,
Gil y Gil ou Tapie também ele abalroou o decoro, a honradez, a rectidão, em
busca de um sonho, o sonho de tornar o seu clube, um clube grande.

