Na passada 5.º feira Portugal foi um verdadeiro “coiffeur”, desfazendo
a barba a uma R. Checa que não soube rivalizar com a glória que outrora nos
trouxeram Smicer, Patrick Berger, Poborsky ou Pavel Nedved.
Uma equipa que no arranque para este europeu havia sido derrotada de
forma copiosa por uns russos “à lá Perestroika”, acabaria, bem feitas as
contas, por sacar o primeiro lugar do grupo, deixando um bilhete de despedida a
Rússia e Polónia e um convite a Portugal.
Apesar das nítidas dificuldades reveladas durante a fase de grupos, a
passagem à fase seguinte transformava uma selecção pouco mais que discreta numa
selecção ameaçadora que, com o apuramento, já tinha erguido a sua taça e nada
tinha a perder. Operava-se aquele conhecido fenómeno futebolístico que não
admite o meio termo: a derrota torna-nos bestas, a vitória bestiais...e os
checos tornavam-se subitamente bestiais.
As equipas subiram ao relvado quando o relógio apontava um quarto para
as 8 da noite. Portugal, esse, entrava em campo com o pensamento ainda cravado num
fabuloso chapéu de abras bem largas com que Karel Poborsky brindara Vitor Baia
em 1996, deixando-o a mirar “el cielo”, apreciando a beleza de uma bola que
transpunha os limites da improbabilidade.
A somar a tudo isto, o receio de tudo se decidir num só jogo e a sorte
ou a falta dela nos poder fazer regressar a casa, depois de termos mostrado a
nossa barba (?) a alemães, holandeses e dinamarqueses e tanta mágoa termos
deixado no coração camorriano de um tal de Platini.
Embora inicialmente expectante e, sobretudo, apreensivo com o excesso
de contenção e cautela, à medida que o tempo foi avançando, a ideia de que,
afinal, esta poderia não ser uma letargia bacoca mas tão só a estratégia que Paulo
Bento montara para o jogo, foi me deixando mais clamo e convicto de que
seriamos capazes de ultrapassar uma equipa ainda à procura da sua identidade.
Após uma primeira parte em que os Checos tudo emprestaram ao jogo mas
do qual nada retiraram a não ser um enorme desgaste físico, veio o intervalo para
dar descanso mas, sobretudo, tempo para que o “homem do penteado difícil” altera-se
o chip dos seus “rapazes” e lhes mostrasse o plano para resgatar um golo que
fosse da baliza de Petr Che. Para tal, nada melhor do que deixar essa
incumbência a um madeirense que tantos disparates nos fez dizer.
Arrancou a segunda parte e logo, logo se percebeu que os jogadores
portugueses não estavam ali para fazer horas extra, pelo que a história da
primeira parte não era para repetir na segunda.
Porém, à medida que o tempo foi avançando, o tic tac do ponteiro era
cada vez mais audível e acelerado, a bola tinha um pacto com o diabo…e com Petr
Che que ostentava um barrete que não era nosso, os jogadores checos, esses, começavam
já a suplicar aos seus pulmões que aguentasse só mais um bocadinho assim…, o
medo de mais uma vez trazermos para casa uma vitória moral, bem ao jeito do
nosso triste fado, parecia sobrepor-se a um optimismo que não sabemos ter.
Quando já nos preparávamos para mais trinta minutos de sofrimento e
uma mais do que provável taluda de 10 penalties, aparece, para além de um
Cristiano que não é apenas Ronaldo mas o melhor do mundo, um pequenino que era
maça podre e hoje fruta de excelência, rasgando pela direita e cruzando com
conta peso e medida para o voou do “nosso orgulho”.
Saltava Paulo Bento, saltava Postiga, que por momentos esqueceu aquela
picada, saltava Luís Figo abraçado a uma pantera que foi Rei em Inglaterra,
saltavam os portugueses abraçados a cachecóis e bandeiras testemunhas da alegria
dos seus corações.
Agora, seguem-se as meias-finais e pela frente uma Espanha que tem
sede em Madrid mas o seu perfume na Catalunha. Na bancada estará Manolo, “El
Bombo de España”, marcando o ritmo de uma equipa que se espera desafinada!

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